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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Açúcares do leite materno protegem bebês
Qua, 11 Ago, 04h14
Grande parte do leite humano não pode ser digerida pelos bebês e parece ter uma finalidade bastante distinta da nutrição infantil - influenciar na composição das bactérias nos intestinos do bebê.
Os detalhes dessa relação a três entre mãe, criança e micróbios intestinais estão sendo analisados por três pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Davis - Bruce German, Carlito Lebrilla e David Mills.
Junto a colegas, eles descobriram que um tipo específico de bactérias, uma subespécie da Bifidobacterium longum, possui um conjunto especial de genes que possibilita seu desenvolvimento nos componentes indigeríveis do leite.
Essa subespécie é comumente encontrada nas fezes de bebês amamentados.
Ela reveste a superfície interior dos intestinos infantis, protegendo contra bactérias nocivas.
Os bebês supostamente adquirem a classe especial de "bifido" de suas mães, mas ela ainda não foi identificada em adultos.
"Estamos todos imaginando onde ela se esconde", disse Mills.
A substância indigerível que favorece a bactéria bifido é uma grande quantidade de açúcares complexos derivados da lactose, o principal componente do leite.
Os açúcares complexos consistem de uma molécula de lactose à qual foram acrescentadas cadeias de outras unidades de açúcar.
O genoma humano não contém os genes necessários para quebrar os açúcares complexos, mas a subespécie bifido sim, afirmaram os pesquisadores, numa revisão de seu progresso na "Proceedings of the National Academy of Sciences".
Sempre se acreditou que os açúcares complexos não possuíam importância biológica, mesmo constituindo até 21% do leite.
Além de promover o crescimento da classe bifido, eles também servem como iscas para bactérias nocivas que possam atacar os intestinos do bebê.
Os açúcares são muito parecidos com aqueles encontrados na superfície das células humanas, e são construídos nas mamas pelas mesmas enzimas.
Muitas bactérias e vírus tóxicos se unem a células humanas ao se ancorar nos açúcares da superfície.
Mas aqui, em vez disso, eles se unem aos açúcares complexos do leite.
"Achamos que as mães evoluíram para transmitir essa substância ao bebê", afirmou Mills.
German considera o leite como "um impressionante produto da evolução", que foi vigorosamente moldado pela seleção natural por ser tão essencial à sobrevivência de mãe e filho.
"Tudo no leite vem da mãe - ela está literalmente dissolvendo seus próprios tecidos para produzi-lo", explicou ele.
Do ponto de vista do bebê, ele nasce num mundo repleto de micróbios hostis, com um sistema imunológico destreinado e sem o cáustico ácido estomacal que, nos adultos, mata a maioria das bactérias.
Qualquer elemento no leite capaz de protejer o bebê será fortemente favorecido pela seleção natural.
"Ficamos impressionados que o leite tivesse tanto material indigerível pelo bebê", disse German.
"Descobrir que ele seletivamente estimula o crescimento de bactérias específicas, que por sua vez protegem a si mesmo, nos permite enxergar a genialidade da estratégia - as mães recrutando outra forma de vida para cuidar de seus filhos".
German e seus colegas estão tentando "desconstruir" o leite, na teoria de que o fluido foi moldado por 200 milhões de anos de evolução mamífera e guarda uma riqueza de informações sobre a melhor forma de alimentar e defender o corpo humano.
Embora o leite em si seja projetado para bebês, suas lições podem se aplicar aos adultos.
Os açúcares complexos, por exemplo, são evidentemente uma forma de influenciar a microflora intestinal, então eles podem, em princípio, ser usados para ajudar bebês prematuros, ou aqueles nascidos por cesariana, que não adquirem imediatamente a classe bifido.
Sempre se pensou que não existia fonte para os açúcares além do leite humano, mas eles foram recentemente identificados no soro de leite, um subproduto da fabricação de queijos.
Os três pesquisadores pretendem testar os açúcares complexos por benefícios a bebês prematuros e idosos.
As proteínas do leite também possuem funções especiais.
Uma delas, chamada Alpha- lactalbumin, pode atacar células de tumores e aquelas infectadas por vírus, ao restaurar sua habilidade perdida de cometer suicídio celular.
A proteína, que se acumula quando um bebê é desmamado, também é o sinal para que os seios se remodelem de volta ao estado normal.
Essas descobertas deixaram os três pesquisadores bastante cientes de que cada componente do leite possui uma função especial.
"Tudo está ali por um motivo, embora ainda estejamos descobrindo quais são esses motivos", disse Mills.
"Então, pelo amor de Deus, amamentem seus filhos".
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
A cólica - Por Dr. González
Tipicamente, o choro acontece sobretudo à tarde, de seis às dez, a hora crítica. Às vezes de oito à meia-noite, às vezes de meia-noite às quatro, e alguns parecem que estão a postos vinte e quatro horas por dia. Costuma começar depois de duas ou três semanas de vida e costuma melhorar por volta dos três meses (mas nem sempre).
Quando a mãe amamenta e o bebê chora de tarde, sempre há alguma alma caridosa que diz: “Claro! De tarde seu leite acaba!”. Mas então, por que os bebês que tomam mamadeira têm cólicas? (a incidência de cólica parece ser a mesma entre os bebês amamentados e os que tomam mamadeira). Por acaso há alguma mãe que prepare uma mamadeira de 150 ml pela manhã e de tarde uma de 90 ml somente para incomodar e para fazer o bebê chorar? Claro que não! As mamadeiras são exatamente iguais, mas o bebê que de manhã dormia mais ou menos tranquilo, à tarde chora sem parar. Não é por fome.
“Então, por que minha filha passa a tarde toda pendurada no peito e por que vejo que meus peitos estão murchos?” Quando um bebê está chorando, a mãe que dá mamadeira pode fazer várias coisas: pegar no colo, embalar, cantar, fazer carinho, colocar a chupeta, dar a mamadeira, deixar chorar (não estou dizendo que seja conveniente ou recomendável deixar chorar, só digo que é uma das coisas que a mãe poderia fazer). A mãe que amamenta pode fazer todas essas coisas (incluindo dar uma mamadeira e deixar chorar), mas, além disso, pode fazer uma exclusiva: dar o peito. A maioria das mães descobrem que dar de mamar é a maneira mais fácil e rápida de acalmar o bebê (em casa chamamos o peito de anestesia), então dão de mamar várias vezes ao longo da tarde. Claro que o peito fica murcho, mas não por falta de leite, mas sim porque todo o leite está na barriga do bebê. O bebê não tem fome alguma, pelo contrário, está entupido de leite.
Se a mãe está feliz em dar de mamar o tempo todo e não sente dor no mamilo (se o bebê pede toda hora e doem os mamilos, é provável que a pega esteja errada), e se o bebê se acalma assim, não há inconveniente. Pode dar de mamar todas as vezes e todo o tempo que quiser. Pode deitar na cama e descansar enquanto o filho mama. Mas claro, se a mãe está cansada, desesperada, farta de tanto amamentar, e se o bebê está engordando bem, não há inconveniente que diga ao pai, à avó ou ao primeiro voluntário que aparecer: “pegue este bebê, leve para passear em outro cômodo ou na rua e volte daqui a duas horas”. Porque se um bebê que mama bem e engorda normalmente mama cinco vezes em duas horas e continua chorando, podemos ter razoavelmente a certeza de que não chora de fome (outra coisa seria um bebê que engorda muito pouco ou que não estava engordando nada até dois dias atrás e agora começa a se recuperar: talvez esse bebê necessite mamar muitíssimas vezes seguidas). E sim, se pedir para alguém levar o bebê para passear, aproveite para descansar e, se possível, dormir. Nada de lavar a louça ou colocar em dia a roupa para passar, pois não adiantaria nada.
Às vezes, acontece de a mãe estar desesperada por passar horas dando de mamar, colo, peito, colo e tudo de novo. Recebe seu marido como se fosse uma cavalaria: “por favor, faça algo com essa menina, pois estou ao ponto de ficar doida”. O papai pega o bebê no colo (não sem certa apreensão, devido às circunstâncias), a menina apoia a cabecinha sobre seu ombro e “plim” pega no sono. Há várias explicações possíveis para esse fenômeno. Dizem que nós homens temos os ombros mais largos, e que se pode dormir melhor neles. Como estava há duas horas dançando, é lógico que a bebê esteja bastante cansada. Talvez precisasse de uma mudança de ares, quer dizer, de colo (e muitas vezes acontece o contrário: o pai não sabe o que fazer e a mãe consegue tranquilizar o bebê em segundos).
Tenho a impressão (mas é somente uma teoria minha, não tenho nenhuma prova) de que em alguns casos o que ocorre é que o bebê também está farto de mamar. Não tem fome, mas não é capaz de repousar a cabeça sobre o ombro de sua mãe e dormir tranqüilo. É como se não conhecesse outra forma de se relacionar com sua mãe a não ser mamando. Talvez se sinta como nós quando nos oferecem nossa sobremesa favorita depois de uma opípara refeição. Não temos como recusar, mas passamos a tarde com indigestão. No colo da mamãe é uma dúvida permanente entre querer e poder; por outro lado, com papai, não há dúvida possível: não tem mamá, então é só dormir.
Minha teoria tem muitos pontos fracos, claro. Para começar, a maior parte dos bebês do mundo estão o dia todo no colo (ou carregados nas costas) de sua mãe e, em geral, descansam tranquilos e quase não choram. Mas talvez esses bebês conheçam uma outra forma de se relacionar com suas mães, sem necessidade de mamar. Em nossa cultura fazemos de tudo para deixar o bebê no berço várias horas por dia; talvez assim lhes passemos a idéia de que só podem estar com a mãe se for para mamar.
Porque o certo é que a cólica do lactente parece ser quase exclusiva da nossa cultura. Alguns a consideram uma doença da nossa civilização, a consequência de dar aos bebês menos contato físico do que necessitam. Em outras sociedades o conceito de cólica é desconhecido. Na Coreia, o Dr. Lee não encontrou nenhum caso de cólica entre 160 lactentes. Com um mês de idade, os bebês coreanos só passavam duas horas por dia sozinhos contra as dezesseis horas dos norteamericanos. Os bebês coreanos passavam o dobro do tempo no colo que os norteamericanos e suas mães atendiam praticamente sempre que choravam. As mães norteamericanas ignoravam deliberadamente o choro de seus filhos em quase a metade das vezes.
No Canadá, Hunziker e Barr demonstraram que se podia prevenir a cólica do lactente recomendando às mães que pegassem seus bebês no colo várias horas por dia. É muito boa idéia levar os bebês pendurados, como fazem a maior parte das mães do mundo. Hoje em dia é possível comprar vários modelos de carregadores de bebês nos quais ele pode ser levado confortavelmente em casa e na rua. Não corra para colocar o bebê no berço assim que ele adormecer; ele gosta de estar com a mamãe, mesmo quando está dormindo. Não espere que o bebê comece a chorar, com duas ou três semanas de vida, para pegá-lo no colo; pode acontecer de ter “passado do ponto” e nem no colo ele se acalmar. Os bebês necessitam de muito contato físico, muito colo, desde o nascimento. Não é conveniente estarem separados de sua mãe, e muito menos sozinhos em outro cômodo. Durante o dia, se o deixar dormindo um pouco em seu bercinho, é melhor que o bercinho esteja na sala; assim ambos (mãe e filho) se sentirão mais seguros e descansarão melhor.
A nossa sociedade custa muito a reconhecer que os bebês precisam de colo, contato, afeto; que precisam da mãe. É preferível qualquer outra explicação: a imaturidade do intestino, o sistema nervoso... Prefere-se pensar que o bebê está doente, que precisa de remédios. Há algumas décadas, as farmácias espanholas vendiam medicamentos para cólicas que continham barbitúricos (se fazia efeito, claro, o bebê caía duro). Outros preferem as ervas e chás, os remédios homeopáticos, as massagens. Todos os tratamentos de que tenho notícia têm algo em comum: tem de tocar no bebê para dá-lo. O bebê está no berço chorando; a mãe o pega no colo, dá camomila e o bebê se cala. Teria seacalmado mesmo sem camomila, com o peito, ou somente com o colo. Se, ao contrário, inventassem um aparelho eletrônico para administrar camomila, ativado pelo som do choro do bebê, uma microcâmera que filmasse o berço, um administrador que identificasse a boca aberta e controlasse uma seringa que lançasse um jato de camomila direto na boca... Acredita que o bebê se acalmaria desse modo? Não é a camomila, não é o remédio homeopático! É o colo da mãe que cura a cólica.
Taubman, um pediatra americano, demonstrou que umas simples instruções para a mãe (tabela 1) faziam desaparecer a cólica em menos de duas semanas. Os bebês cujas mães os atendiam, passaram de uma média de 2,6 horas ao dia de choro para somente 0,8 horas. Enquanto isso, os do grupo de controle, que eram deixados chorando, choravam cada vez mais: de 3,1 horas passaram a 3,8 horas. Quer dizer, os bebês não choram por gosto, mas porque alguma coisa está acontecendo. Se são deixados chorando, choram mais, se tentam consolá-los, choram menos (uma coisa tão lógica! Por que tanta gente se esforça em nos fazer acreditar justo no contrário?).
Tabela 1 – Instruções para tratar a cólica, segundo Taubman (Pediatrics 1984;74:998)
1- Tente não deixar nunca o bebê chorando.
2- Para descobrir por que seu filho está chorando, tenha em conta as seguintes possibilidades:
a- O bebê tem fome e quer mamar.
b- O bebê quer sugar, mesmo sem fome.
c- O bebê quer colo.
d- O bebê está entediado e quer distração.
e- O bebê está cansado e quer dormir.
3- Se continuar chorando durante mais de cinco minutos com uma opção, tente com outra.
4- Decida você mesma em qual ordem testará as opções anteriores.
5- Não tenha medo de superalimentar seu filho. Isso não vai acontecer.
6- Não tenha medo de estragar seu filho. Isso também não vai acontecer.
No grupo de controle, as instruções eram: quando o bebê chorar e você não souber o que está acontecendo, deixe-o no berço e saia do quarto. Se após vinte minutos ele continuar chorando, torne a entrar, verifique (um minuto) que não há nada, e volte a sair do quarto. Se após vinte minutos ele continuar chorando etc. Se após três horas ele continuar chorando, alimente-o e recomece.
As duas últimas instruções do Dr. Taubman me parecem especialmente importantes: é impossível superalimentar um bebê por oferecer-lhe muita comida (que o digam as mães que tentam enfiar a papinha em um bebê que não quer comer); e é impossível estragar um bebê dando-lhe muita atenção. Estragar significa prejudicá-lo. Estragar uma criança é bater nela, insultá-la, ridicularizá-la, ignorar seu choro. Contrariamente, dar atenção, dar colo, acariciá-la, consolá-la, falar com ela, beijá-la, sorrir para ela são e sempre foram uma maneira de criá-la bem, não de estragá-la.
Não existe nenhuma doença mental causada por um excesso de colo, de carinho, de afagos... Não há ninguém na prisão, ou no hospício, porque recebeu colo demais , ou porque cantaram canções de ninar demais para ele, ou porque os pais deixaram que dormisse com eles. Por outro lado, há, sim, pessoas na prisão ou no hospício porque não tiveram pais, ou porque foram maltratados, abandonados ou desprezados pelos pais. E, contudo, a prevenção dessa doença mental imaginária, o estrago infantil crônico , parece ser a maior preocupação de nossa sociedade. E se não, amiga leitora, relembre e compare: quantas pessoas, desde que você ficou grávida, avisaram da importância de colocar protetores de tomada, de guardar em lugar seguro os produtos tóxicos, de usar uma cadeirinha de segurança no carro ou de vacinar seu filho contra o tétano? Quantas pessoas, por outro lado, avisaram para você não dar muito colo, não colocar para dormir na sua cama, não acostumar mal o bebê?
Lee K. The crying pattern of Korean infants and related factors. Dev Med Child Neurol. 1994; 36:601-7
Hunziker UA, Barr RG. Increased carrying reduces infant crying: a randomized controlled trial. Pediatrics 1986;77:641-8
Taubnan B. Clinical trial of treatment of colic by modification of parent-infant interaction. Pediatrics 1984;74:998-1003
Do livro Un regalo para toda la vida- Guía de la lactancia materna,Carlos González
Tradução: Fernanda Mainier
Revisão: Luciana Freitas
sexta-feira, 10 de julho de 2009
O controle da composição do leite - Dr. González
O controle da composição do leite
Dr. González
Não só a quantidade de leite produzida, como também sua composição, depende da forma como o bebê mama. O bebê controla o peito para obter o tipo de leite que necessita em cada momento.
A quantidade de gordura no leite aumenta ao longo da mamada. Não é um aumento pequeno; está comprovado que a concentração de gordura ao final da mamada pode ser cinco vezes maior que no princípio. Às vezes, fala-se em "leite do princípio" e "leite do final"; mas não é que existam dois tipos de leite, "plim", acabou o leite desnatado e agora sai leite com gordura. A quantidade de gordura (e, portanto, de calorias) vai aumentando gradualmente, como se mostra no esquema da figura 1. No princípio, o bebê mama poucas calorias em grande quantidade de leite; ao final, muitas calorias em pouco volume. Veja que nesse gráfico não aparece o tempo. O tempo depende da velocidade em que o bebê mama; pode ser que mame tudo que quer mamar em dois ou três minutos, ou pode precisar de mais de vinte.
Assim, quanto mais leite o bebê ingerir em uma determinada mamada, maior será a quantidade de gordura ingerida (é possível que haja um limite máximo, claro, mas esse limite nunca se alcança, porque como já dissemos, um bebê nunca esvazia o peito completamente). Quando solta o peito, essas últimas gotas que ainda caem têm uma concentração de gordura muito alta. Quando voltar a mamar, após algumas horas, as primeiras gotas de leite terão muita pouca gordura. Aquele último leite concentrado foi sendo diluído durante esse intervalo com o novo leite, mais aguado, que foi produzido nesse período. Acredita-se que também aqui exista um autocontrole, e que, se o bebê deixa dentro do peito muita quantidade de gordura, esta inibe a produção de mais lipídios e o leite produzido em seguida é mais aguado que o habitual. Como se o bebê dissesse: "mamãe, não consigo terminar de comer esse macarrão, está muito gorduroso." e ela responde, "não se preocupe, na próxima vez colocarei menos óleo".
Suponhamos que o bebê pegue e solte o peito, mas após cinco minutos, volte a mamar. Sairá leite com pouca gordura? Claro que não, não houve tempo para que o leite recém produzido tenha diluído o que ficou no peito no fim da mamada anterior. Sairá, desde o princípio, o mesmo leite "do final" que estava saindo há alguns instantes. A quantidade de lipídios do começo da mamada depende do nível que se alcançou na mamada anterior e do tempo transcorrido desde então.
A todo momento, estamos falando de um só peito. Mas, claro, tem também o segundo. Tomar 100 ml de um só peito não é o mesmo que tomar 50 ml de cada um; no segundo caso, o bebê está tomando muito menos gordura e, portanto, muito menos calorias. E também não é o mesmo que tomar 70 e 30, 85 e 15...
E se não é o mesmo, o que é o melhor? Quando tirar o bebê do primeiro peito para colocá-lo no segundo? Não fazemos idéia. Não sabemos qual a quantidade de lipídios que um bebê necessita (os livros de nutrição podem dizer coisas como: “os lactentes entre seis e nove meses necessitam entre x e y miligramas/quilo/dia de lipídios”, mas não pode nos dizer quantos lipídios Laura de Souza, de 8 meses, necessita tomar essa tarde às 16h28min), não sabemos qual a quantidade de lipídios tem o leite no princípio da mamada, não sabemos quantos ml de leite já tomou, não sabemos em qual velocidade está aumentando a quantidade de gordura no leite nesta mamada determinada, não sabemos qual a quantidade de gordura terá o leite do segundo peito, não sabemos qual a quantidade de leite do segundo peito que caberá no estômago dele. E como há gente capaz de dizer coisas como: “em dez minutos tire o bebê do primeiro peito para dar o segundo?” Vai saber! A ignorância dá asas à audácia.
Cada bebê dispõe, pois, de três mecanismos para modificar a composição do leite que toma a cada momento: pode decidir o quanto de leite vai tomar, quanto tempo demorará para voltar a mamar, e se mamará um peito ou dois. Foi comprovado cientificamente, analisando o leite em cada caso, que os três fatores influenciam na sua composição. A quantidade de leite ingerida deveria depender do tempo em que o bebê está no peito; mas a relação é tão variável (uns mamam depressa e outros devagar) que estatisticamente não há relação: não podemos dizer “se está mamando há cinco minutos, ingeriu 50 ml, se está há dez minutos, mamou 130 ml”. A concentração de gordura não depende da quantidade de tempo que o bebê mama e sim da quantidade de leite que o bebê mama no período. Veja bem, para um bebê determinado, em uma mamada determinada, é óbvio que se lhe tiramos do peito antes, terá tomado menos leite. E, se por uma lado é fácil medir quanto tempo mama, por outro é muito difícil saber quanto de leite tomou. Assim, para fins puramente didáticos poderíamos dizer que os três mecanismos de controle são:
- a duração da mamada;
- a frequência das mamadas;
- mamar um peito ou dois.
Cada bebê, em cada momento do dia ou da noite, modifica à vontade esses três fatores para conseguir o alimento que necessita.
Quando se tira o bebê do primeiro peito antes de que ele acabe (talvez porque alguém com boa vontade advertiu: “principalmente, dê o segundo peito antes que ele durma”), em vez do último leite do primeiro peito, tomará o primeiro leite do segundo peito. Isso significa, como indica a figura 2, que necessitará tomar mais quantidade para obter as mesmas calorias. Se a diferença for pequena, provavelmente não acontecerá nada. Toma um pouco mais de leite e problema resolvido. Mas se mudam o bebê de peito quando ainda teria que mamar muito do primeiro (por exemplo, quando tiramos do peito com dez minutos um bebê necessita de quinze ou vinte minutos) a quantidade de leite que teria de tomar é tão grande que, simplesmente, não cabe em seu estômago. Nos adultos, o estômago tem uma capacidade muito superior a que normalmente se usa; poderíamos tomar um litro de água depois de comer e quase não sentiríamos nenhum incômodo. Mas o estômago de um bebê é muito pequeno, quase não tem capacidade de reserva. O bebê se vê obrigado a soltar o segundo peito porque não agüenta mais nada, mas por outro lado, ainda está com fome; a situação é muito similar à que ocorre quando a pega está errada.
Em 1988, Michael Woolridge e Chloe Fisher publicaram na prestigiada revista médica Lancet cinco casos de bebês que apresentavam de forma continuada choro frequente, cólicas, diarreia e outros incômodos. Bastou dizer às mães que não tirassem o bebê do primeiro peito, mas que esperassem que ele soltasse sozinho quando acabasse, para que os problemas desaparecessem. Pouco depois, Woolridge e outros pesquisadores tentaram reproduzir experimentalmente a situação em um grupo de bebês saudáveis que não tinham problemas com a amamentação. Disseram à metade das mães que tirassem o bebê do primeiro peito após dez minutos, e à outra metade que esperassem que o bebê soltasse o peito espontaneamente. Pensavam que os bebês do primeiro grupo tomariam líquido demais, lactose demais e pouca gordura e, portanto, teriam cólicas, vômitos e gases. Mas os próprios bebês modificavam os outros dois fatores, o intervalo entre as mamadas e a decisão de mamar um peito ou os dois, de forma que ao longo do dia conseguiam mamar a mesma quantidade de gordura que o outro grupo e não tinham nenhum problema.
Como o bebê tem três ferramentas (lembre: frequência das mamadas, duração das mamadas, mamar um peito ou dois) para controlar a composição do leite, é possível que a maioria deles dê um jeito para controlar com duas delas, mesmo que tenhamos fixado a terceira arbitrariamente. Talvez aqueles cinco bebês que tiveram problemas para limitar o tempo de sucção sejam exceções, sejam bebês (ou mães) com menor capacidade fisiológica de adaptação. Do mesmo modo, todos nós caminhamos, mas na hora de correr uns irão mais depressa e se cansarão antes que os outros.
A capacidade de adaptação dos seres vivos pode ser muito grande, mas não podemos esperar milagres. Ao longo do século passado, muitos médicos se empenharam em controlar simultaneamente os três fatores: o bebê tem que mamar exatamente dez minutos de cada lado a cada quatro horas. A exatidão chegava a ser obsessiva; ainda hoje algumas mães perguntam se as quatro horas começam a contar desde quando o bebê começa a mamar ou desde que acaba (porque, claro, com dez minutos por peito e um entre eles para arrotar, seriam quatro horas e vinte e um minutos). Muitos livros e muitos especialistas nem sequer diziam “a cada quatro horas”, mas estipulavam as horas concretas: às oito, ao meio dia, às quatro, às oito e à meia noite. Nem pense em dar às nove, à uma e às cinco! Entre meia-noite e oito da manhã havia um descanso noturno de oito horas (passar metade da noite acordada vendo seu filho chorar e não podendo dar de mamar era chamado de descanso noturno). O intervalo de quatro horas era a recomendação da escola alemã. Também havia uma recomendação da escola francesa de dar de mamar a cada três horas, com descanso noturno de seis horas. Cabe perguntar se dar de mamar cinco ou sete vezes durante o dia influía no caráter nacional desses países. Também havia partidários de dar em cada mamada um peito ou ambos (esses últimos mais numerosos), o que no total perfaziam quatro teorias: um peito a cada três horas, dois a cada três, um a cada quatro horas e dois a cada quatro horas. Mas, habitualmente, cada médico seguia uma teoria somente e a defendia com entusiasmo.
Assim, os bebês se encontravam totalmente desarmados: não poderiam decidir sobre a frequência, nem sobre a duração, nem o número de peitos que deveriam mamar. E não podiam controlar nem a quantidade nem a composição do leite, tinham que se conformar com o que o acaso lhe determinava. Na maioria dos casos, a quantidade era insuficiente e a composição, inadequada; os bebês choravam, queixavam-se, vomitavam, não aumentavam de peso... Há uns anos, na Espanha, ainda amamentar aos três meses era raro, e fazê-lo sem ajuda de complemento era quase heroico.
Claro, também há casos em que, pela mais rocambolesca das coincidências, o bebê obtém a quantidade de leite de que necessita e com uma composição adequada mamando dez minutos a cada quatro horas. Essas raras exceções só vêm confirmar a fé dos médicos nos horários rígidos: “Isso de amamentar em livre demanda é uma bobagem. Eu conheci uma mãe que seguia ao pé da letra a regra de dez minutos a cada quatro horas, e tudo ia maravilhosamente bem; amamentou até os nove meses e o bebê dormia como um anjo e engordava perfeitamente. O que acontece é que as mães de hoje não querem trabalho, preferem a comodidade da mamadeira.”
Woolridge MW, Fisher C. Colic, “overfeeding” and symptoms of lactose malabsorptiom in the breast-fed baby: a possible artifact of feed management? Lancet. 1988; 2:382-4.
Woolridge MW. Baby-controlled breastfeeding: biocultural implications. En Stuart-Macadam P, Dettwyler KA, eds.: Breastfeeding. Biocultural perspectives. New York: Aldine de Gruyter, 1995.
Woolridge MW, Ingram LC, Baum LD. Do changes in pattern of breast usage alter the baby’s nutrient intake? Lancet 1990;336:395-397.
Tradução: Fernanda Mainier
Revisão: Luciana Freitas
Nota das tradutoras:
Resumindo, os bebês têm 3 mecanismos para controle das mamadas e da ingestão de leite:1- a duração da mamada - portanto é um erro determinar que o tempo que o bebê deve mamar, nem 5 nem 10, nem 15, nem 50 minutos. Cada bebê controlará em cada mamada quanto tempo deve mamar. Se tiramos o bebê antes do tempo que ele vai determinar naquela mamada, é óbvio que terá mamado menos do que necessita.
2- a frequência das mamadas - portanto, é igualmente errado colocar intervalos fixos para mamadas: nem de 3 em 3 horas, nem de 4 em 4 horas, nem de 1 em 1 hora. O bebê é que determina se quer mamar 1 hora depois ou 3 horas depois. É o que chamamos livre demanda.
3- se quer mamar um peito ou dois - só devemos trocar o bebê de peito numa mesma mamada, se ele largar espontaneamente o primeiro e demonstrar que ainda quer mamar, e que o primeiro se esvaziou (se no primeiro ainda há leite, deve-se oferecer o primeiro novamente - se for na mesma mamada). Assim, a regra é um peito por mamada, a não ser que ele ainda queira mais. E sempre alternando os peitos a cada mamada.
Se colocarmos limites nesses três fatores, ou seja, determinar quantos minutos devem durar as mamadas, determinar o intervalo entre elas e oferecer sistematicamente sempre os dois peitos numa mesma mamada estaremos contribuindo e muito para que o bebê não ingira a quantidade de leite adequada ao seu desenvolvimento.
Esqueçam o relógio!
terça-feira, 16 de junho de 2009
Introdução de Sólidos – por Dr. González
Para esclarecer, quando mencionamos “sólidos”, não nos referimos apenas aos alimentos oferecidos ao bebê com uma colher. Usaremos o termo para referir-se a qualquer comida além de leite humano ou leite modificado, mesmo água, chá ou comidas duras como biscoito.
Muitas mães encontram-se sobrecarregadas de informação a respeito de regras, grandes, pequenas e médias envolvendo alimentação de bebês. Elas recebem conselhos de pediatras e enfrmeiros, algumas informações muito mais complexas e detalhadas que aquelas dadas pelos especialistas famosos, palpites de família e amigos, bem como as “conversas de comadre” que alertam sobre evitar comidas “reimosas” ou “incompatíveis”.
Incapaz de seguir todas as regras ao mesmo tempo, muitas vezes a mãe opta por rejeitar todas e fazer somente aquilo que ela quer. O risco é de que ela ignore as recomendações realmente importantes. Para evitar tal problema, vou diferenciar claramente entre as opções onde há um grau de consenso em relação à sua importância (baseadas numa combinação de normas internacionais) e aquelas sugestões que parecem úteis, embora outros profissionais possam ter opções diferentes.
Pontos Importantes
Tenha em mente os seguintes pontos, embora eles não devam ser tomados como dogma:
1. Nunca force uma criança a comer.
2. Amamente exclusivamente até 6 meses (sem papinhas, suco, água, chás, etc.).
3. Aos 6 meses, comece (sem forçar) a oferecer outros alimentos, sempre depois da mamada ao seio. Bebês não amamentados devem tomar 500ml de leite artificial por dia.
4. Introduza os alimentos um de cada vez, esperando uma semana entre comidas novas. Comece com quantidades pequenas.
5. Ofereça alimentos que contêm glúten (trigo, aveia, centeio) com precaução.
6. Quando cozinhar para o bebê, escorra bastante o alimento, evitando encher a barriga dele com água.
7. Espere até 12 meses de idade para introduzir alimentos altamente alergênicos (especialmente laticínios, clara de ovo, peixe, soja, amendoim e muitas outras comidas que já causam alergia em membros da família).
8. Não acrescente sal ou açúcar aos alimentos.
9. Continue amamentando por 2 anos ou mais.
Em algumas situações pode-se introduzir sólidos antes de 6 meses (mas nunca antes de 4): quando a mãe trabalha, por exemplo. Ou quando a criança claramente pede para ser alimentada agarrando o alimento e colocando-o na boca sozinha.
“Oferecer” significa que, se ele quiser comer, o bebê come, mas se não quiser, não come. Muitas crianças recusam tudo menos o seio até 8 ou 10 meses, muitas vezes mais.
Alimentos sólidos são oferecidos depois da amamentação, não antes, e certamente não em substituição à amamentação. Somente assim você tem certeza de que seu bebê tomará o leite de que precisa. Acredita-se que entre 6-12 meses, o bebê precise de cerca de 500 ml de leite por dia. Claro que isso é uma média, muitos tomam mais e outros ficam bem com menos. Uma criança que toma mamadeira pode facilmente ficar bem com 2 mamadeiras de 250 ml ao dia. Não é razoável, porém, esperar que um bebê amamentado tome 250 ml a cada 12 horas; os seios da mãe ficariam desconfortavelmente cheios. Faz mais sentido para bebês amamentados tomar 100 ml cinco vezes por dia, ou 70 ml sete vezes por dia. Certamente você não sabe (ou não sabia antes de iniciar os sólidos) quanto leite seu bebê mama; mas se ele é amamentado antes da oferta de sólidos, você fica tranqüila sabendo que ele mama o que precisa.
Que comidas devo oferecer primeiro?
Não importa. Não há base científica que suporte a recomendação de um alimento antes de outro. Se você oferecer frutas primeiro, seguidas por cereal, depois frango, você estará seguindo as orientações da ESPGAN (Sociedade Européia de Gastroenterologia e Nutrição Pediátricas). Mas se você der frango, depois legumes e cereais por último, também estará dentro das normas.
Digamos que você decida começar com banana amassada. Depois da amamentação, ofereça ao bebê uma ou duas colheres. No primeiro dia é sempre melhor oferecer só um pouquinho, ainda que ele aceite bem. Se ele recusar a primeira colherada, não insista, mas continue oferecendo a cada um ou dois dias. Se ele aceitar bem, você pode aumentar a quantidade a cada dia. Depois de uma semana, você pode tentar outro alimento, como batata doce ou abacate. Na semana seguinte, pode oferecer um pouquinho de arroz. Cozinhe arroz (melhor ainda, cozinhe até virar papa), sem adicionar sal. Você pode adicionar azeite (ficará mais saboroso e terá mais calorias).
Esta ordem é só um exemplo, você pode inverter, se quiser. Claro, se alguma das comidas causar diarréia ou outros sintomas, ou se o bebê rejeita veementemente, é melhor esperar algumas semanas. Se uma reação mais severa é observada, como uma vermelhidão na pele, consulte o pediatra.
Também não é necessário introduzir uma comida nova a cada semana. Variedade significa um pouco de cereais, um pouco de legumes, um pouco de frutas – mas não é vital que o bebê coma muito de cada grupo. Maçãs não possuem nada diferente das peras e a maioria dos adultos vive bem comendo apenas dois tipos de ceral: arroz e trigo, deixando o resto para o gado. Se seu filho já come frango, você não estará acrescentando nada ao oferecer novilha. Antes de 1 ano, a introdução de muitos alimentos diferentes somente significa comprar mais bilhetes para a loteria da alergia.
A razão principal de oferecer outros alimentos ao bebê com 6 meses (e não depois) é que alguns bebês precisam de ferro extra. Portanto, seria lógico que comidas ricas em ferro fossem introduzidas primeiro. Por um lado, há carnes com alto teor de ferro orgânico altamente biodisponível. Por outro, há legumes, leguminosas e cereais que contêm ferro inorgânico, mais difícil de ser absorvido a menos que esteja combinado com vitamina C. É por isso que muitos adultos comem a salada primeiro (rica em vitamina C), depois os grãos e legumes, com a sobremesa por último. O que é comumente feito com bebês na Espanha não é uma idéia muito boa, oferecendo a eles somente grãos numa refeição, legumes na outra e fruta na próxima. Quando seu bebê ingere muitos alimentos, é uma boa idéia combiná-los , oferecendo-os numa mesma refeição (não batendo todos juntos no liqüidificador) ao invés de fazer menus monocromáticos (“hora do cereal”).
Não se preocupe, isso é totalmente normal. Não tente forçá-lo. Você talvez tenha sido aconselhada a oferecer sólidos antes do peito, assim ele estará com fome suficiente para comer. Isso não faz o menor sentido, uma vez que o leite materno nutre muito mais que qualquer outro alimento. É por esta razão que usamos o termo “alimentação complementar”. Sólidos não são nada mais que um complemento ao leite materno. Se seu bebê mama e depois rejeita frutas, nada acontece; mas se ele aceita fruta e depois não mama, ele sai perdendo. Mais fruta e menos leite é uma receita para perda de peso.
O mesmo vale para leite artificial. Lembre-se de que se você não está amamentando, você precisa dar ao bebê meio litro de leite diariamente até que ele tenha 1 ano de idade. Não é bom negar o leite para que ele coma mais."
Do livro My Child Won't Eat, Dr. Carlos González.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Livre demanda: o que é realmente
um resumo do capítulo A Frequência e a Duração das Mamadas, do livro Un Regalo Para Toda La Vida, do dr. Carlos González.
Provavelmente, você já escutou que o peito se dá a demanda. Mas é fácil que lhe tenham explicado mal. É muito difícil erradicar da nossa cultura essa obsessão coletiva com os horários das mamadas. Parece que sempre foi assim. Alguns, ao ouvir falar da livre demanda, acham que é um invento dos hippies e com semelhante despropósito vamos criar uma geração de selvagens indisciplinados. Mas é justo o contrário, dar o peito à demanda é que sempre foi assim e os horários são uma invenção moderna. É verdade que algum médico romano já havia falado de horários, mas foi um caso isolado e naquele tempo as mães não perguntavam aos médicos como tinham que dar o peito. Praticamente todos os médicos do séc.XVIII recomendavam a amamentação a demanda (ou não recomendavam nada, porque, como a amamentação não é uma doença, os médicos não se ocupavam muito desse tema). Só a princípios do séc.XX começaram quase todos os médicos a recomendar um horário e mesmo assim poucas mães o seguiam, porque não havia saúde pública e os pobres não iam ao médico se não estivessem muito doentes. Só quando as visitas ao pediatras começaram a converter-se numa cerimônia regular, em meados do século passado, começaram as mães a tentar seguir um horário, com péssimos resultados.
Muita gente(mães, familiares, médicos ou enfermeiras) lê ou ouve isso de livre demanda e pensa: “Sim, claro, não é necessário ser rígidos com as três horas. Se chora 15 min. antes, pode-se dar o peito e também não é necessário acordá-lo se está dormindo”. Ou então: “Sim, claro, a demanda, como sempre disse, nunca antes de duas horas e meia nem mais tarde que quatro”. Tudo isso não é a demanda; são só horários flexíveis, que claro que não são tão ruins como os horários rígidos, mas continuam causando problemas. Livre demanda significa em qualquer momento, sem olhar o relógio, sem pensar no tempo, tanto se o bebê mamou faz 5 horas quanto se mamou faz 5 minutos.
Mas, como pode ter fome aos cinco minutos? Imagine que está criando o seu filho com mamadeira. Ele costuma tomar 150ml e, de repente, um dia, o bebê só toma 70 ml. Se aos cinco minutos, parece que tem fome, você dá os 80 ml ou pensa: “Como pode ter fome se faz só cinco minutos que tomou a mamadeira?”. Tenho certeza que todas as mães dariam a mamadeira sem duvidar um único minuto, de fato, muitas passariam mais de uma hora tentando meter a mamadeira na boca do bebê a cada cinco minutos. Pois bem, se um bebê solta o peito e ao cabo de cinco minutos parece ter fome, pode ser que só tenha mamado a metade. Talvez tenha engolido ar e se sentia incômodo e agora que arrotou já pode continuar mamando. Talvez tenha se distraído ao ver uma mosca e agora a mosca já se foi e ele percebeu que ainda tem fome. Talvez tanha se enganado, achou que estava satisfeito e agora mudou de opinião. Em todo caso, só esse bebê, nesse momento, pode decidir se precisa mamar ou não. Um especialista que escreveu um livro na sua casa no ano passado ou faz um século, ou a pediatra que viu o bebê na quinta passada e lhe recomendou um horário não podem saber que seu filho hoje, às 14:45 da tarde ia ter fome. Isso seria atribuir-lhes poderes sobrenaturais.
E qual o tempo máximo? É preciso acordá-los? Quantas horas podem estar sem mamar? Em princípio, as horas que queira. Um bebê saudável, que engorda normalmente, não precisa ser acordado. É distinto o caso de um bebê que está doente ou não aumenta normalmente de peso. Um bebê pode estar tão fraco que não tem força para pedir o peito. Nesses casos, é preciso oferecer o peito com mais frequência. Isso também pode aplicar-se aos recém-nascidos.
Quando o bebê dorme muito, muitas vezes não é preciso acordá-lo, mas sim estar atento aos seus sinais de fome. A demanda não significa dar o peito cada vez que chore. O choro é um sinal tardio de fome. Do momento que uma criança maior tenha fome até que chore podem passar várias horas. Do momento que um bebè tem fome até que chore podem passar alguns minutos, ou até mais, dependendo da personalidade do bebê. Mas é raro, que nada mais ter fome, comece a chorar. Antes disso terá mostrado sinais precoces de fome: uma mudança no nível de atividade (acordar, mexer-se), movimentos com a boca, movimentos de procura com a cabeça, barulhinhos, por as mãozinhas na boca...então, é quando se deve pô-lo no peito, não esperar que chorem. Se um bebê que está fraco porque perdeu peso está sozinho no seu quarto, fora da vista dos seus pais, é provável que dê estes sinais e ninguém perceba e ele volte a dormir por cansaço.
Dar o peito à demanda não significa que mame o que mame o bebê, sempre seja normal. Pois bem, também existem valores normais para a frequência e a duração das mamadas. O problema é que não sabemos quais os valores normais para o ser humanos. Porque o ser humano vive em sociedades, em civilizações, com nossas crenças e normas. As espanholas, há trinta anos, davam o peito dez minutos cada quatro horas. Não faziam o que queriam, o normal, mas sim o que havia indicado o médico ou o livro. Se no Alto Orinoco existe uma tribo que dá o peito cinco minutos a cada hora e meia, isso é o natural ou é o que recomenda o xamã da tribo?
Inclusive dentro da Europa há diferenças. Num estudo multinacional sobre crescimento dos bebês, observaram com surpresa que o número médio de mamadas ao dia aos dois meses de idade ia desde 5,7 em Rostock (Alemanha) até 8,5 no Porto, passando por 6,5 em Madrid ou 7,2 em Barcelona. Mulheres de cultura muito similar, que supostamente estão dando o peito à demanda. Como é possível que os bebês demandem mais peito num país que no outro?
A resposta é simples, mas inquietante. Acontece que a amamentação a demanda, o conceito em torno do qual gira esse livro não existe. Não existe porque os bebês não sabem falar. Se um bebê falasse, um observador imparcial poderia certificar: “Efetivamente, essa mãe está dando o peito à demanda”, porque às 11:23 a menina disse: “Mamãe, peito” e às 11:41 voltou a pedir, mas não lhe deu o peito até que pediu por terceira vez, às 11:57. Como os bebês não falam, fica a critério da mãe decidir quando está demandando ou não. Dois bebès choram, uma mãe lhe dá o peito no mesmo instante e a outra olha o relógio e diz: “Fome não é, porque não faz nem uma hora e meia que mamou, devem ser os dentes” e lhe dá um mordedor. Dois bebês mexem a cabecinha e a boca procurando peito. Uma mãe dá o peito, a outra nem percebe porque o bebê estava no berço e a mãe não o via. Dois bebês dizem: “angu”. Uma mãe pensa: “Ui, já acordou” e o põe no peito e a outra o olha embevecida e diz: “que lindo, já diz angu!”.
Por último, recordar que à demanda não só significa quando o bebê quer, mas também quando a mãe quer. É claro que as necessidades de um recém-nascido são totalmente prioritárias. Mas, à medida que o bebê cresce, cada vez sua mãe tem mais possibilidades de decidir quando dá o peito ou não. Vale ressaltar que um horário rígido é inadequado em qualquer idade e sempre convém que o bebê decida a maioria das mamadas. Mas não há problemas em adiantar ou atrasar um pouco alguma das mamadas.
Assim que, ao contrário do que muita gente pensa, a livre demanda não é uma escravidão, mas sim uma liberação para a mãe. A maioria das vezes pode fazer o que quer o seu filho, de modo que o bebê está feliz e não chora e portanto, a mãe também está feliz e não chora. E de vez em quando pode fazer o que ela quer. A escravidão é o relógio.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Leite materno - Como se faz
Anatomia e Fisiologia da LactaçãoO começo do processo, ainda durante a gravidez
Se você estiver grávida, provavelmente já percebeu mudanças nos seus seios. Essas alterações físicas - seios mais inchados, sensíveis e aréolas (o círculo da pele ao redor do mamilo) mais escurecidas – são algumas das primeiras “dicas” de que você vai ter um bebê!
Os especialistas acreditam que a mudança da cor também pode ser uma ajuda para a amamentação. É a maneira que a natureza tem de fornecer um “guia” visual que ajuda os recém-nascidos a encontrar o seio (“ei, o jantar está aqui!!!”). Um outro sinal da gravidez é o aparecimento de pequenos carocinhos em torno da aréola chamados “glândulas de Montgomery”, que também têm um papel fundamental na amamentação. Estes pequenos caroços produzem uma substância oleosa que limpa, lubrifica e protege o mamilo de infecções durante a amamentação.
Algumas têm leite vazando na roupa, mesmo antes do bebê nascer, outras não. Ninguém deve se preocupar com isso, não é sinal de nada. O leite virá.
O que está acontecendo no seu seio
Ainda mais impressionante que esta transformação visível,

são as grandes mudanças que ocorrem dentro dos seus seios. Sua placenta estimula a liberação do estrogênio e progesterona, que, por sua vez, estimulam o complexo sistema biológico que faz a lactação possível.
Antes da gravidez, seus seios eram compostos de uma combinação do tecido de sustentação, glândulas lactíferas e gordura (a quantidade de gordura varia entre as mulheres, e é por isso que os seios têm tal variedade de tamanhos e formas). De fato, seus seios têm se preparado para essa gravidez desde que você era um embrião de seis semanas, no ventre da sua mãe.
Quando você nasceu, a maioria dos seus ductos lactíferos – uma rede de canais por onde passa o leite através do seio – já estavam formados. Suas glândulas mamárias permaneceram “em repouso” até a puberdade, quando uma inundação do estrogênio fez com que seus seios crescessem e desenvolvessem. Durante a gravidez, essas glândulas começam a trabalhar a todo vapor…
Quando seu bebê nasce, o tecido glandular substituiu a maioria das células lipídicas o que explica o seu seio maior-que-nunca. Cada seio pode ter até cerca de 680 gramas!
Entre as células gordurosas e o tecido glandular fica uma intricada rede de canaletas ou canais chamados ductos lactíferos. Os hormônios da gravidez provocam um aumento de número e tamanho nos ductos lactíferos. Estes ramificam-se em canais menores e, terminam em pequenas glândulas redondas chamadas alvéolos que formam “cachos”, chamados lóbulos. O leite materno é produzido nesses alvéolos. Cada mama tem entre 15 e 20 lóbulos com um ducto lactífero para cada lóbulo.
O leite é produzido dentro dos alvéolos, que são cercados por células musculares que espremem as glândulas e mandam o leite para fora através dos ductos. Pequenos ductos conduzem a um ducto maior que se alarga em um “reservatório” chamado seio lactífero, que fica logo abaixo do aréola. Os seios lactíferos agem como reservatórios que guardam o leite até que seu bebê o sugue através de minúsculas aberturas em seu mamilo.
A Mãe Natureza é tão esperta que esse complexo sistema do ductos está completamente formado em algum momento durante seu segundo trimestre, assim você poderá nutrir seu bebê mesmo se ele nascer prematuramente.
A produção se acelera, depois que o bebê nasce
Produção de leite e prolactina
Você começará a produzir leite em “escala total” cerca de 72 horas depois do nascimento do bebê. Uma vez que você expele a placenta, os níveis de estrogênio e progesterona diminuem drasticamente em seu corpo. Ao mesmo tempo, o nível do prolactina aumenta. Este hormônio produzido na glândula pituitária sinaliza ao seu corpo para produzir lotes de leite para nutrir seu bebê. Os estudos mostram também que a prolactina pode fazer você sentir-se mais “maternal,” por isso alguns especialistas chamam este de “hormônio materno”.Enquanto seu corpo se prepara para a lactação, ele bombeia sangue extra nos alvéolos, fazendo seus seios ficarem firmes e cheios. As veias sangüíneas inchadas, combinadas com uma abundância de leite, podem fazer seus peitos temporariamente dolorosos e engurgitados, mas se você amamentar freqüentemente, nos no primeiros poucos dias poderá aliviar todo desconforto.
Cada vez que a criança suga, estimula as terminações nervosas do mamilo. Estes nervos levam o estímulo para a parte anterior da glândula pituitária que produz a prolactina. Esta, através da circulação sanguínea, atinge as mamas que produzem o leite. A prolactina atua depois que a criança mama e produz leite para a próxima mamada.
Essas etapas, desde a estimulação do mamilo até a secreção do leite, são chamadas reflexo de produção ou reflexo da prolactina.
A glândula pituitária produz mais prolactina durante a noite do que durante o dia. Portanto, o aleitamento materno à noite ajuda a manter uma boa produção de leite.
Primeiro vem o colostro
Nos primeiros dias de nascido, seu seio vai produzir uma substância cremosa, altamente protéica, com baixa gordura chamada colostro . Provavelmente, nos últimos meses da gravidez você já viu algumas gotas dessa substância grossa e amarelada (algumas mulheres têm até mesmo um pouco de colostro no segundo trimestre da gravidez). Este precioso, facilmente digestivo “primeiro leite” é cheio de anticorpos contra doenças chamados imunoglobulinas que fortalecem o sistema imunológico do seu bebê .
Como o leite flui de você para seu bebê
Para que seu bebê aprecie seu leite, ele deve “baixar” ou ser liberado dos alvéolos internos.É assim que isso acontece: seu bebê suga seu mamilo, estimulando a glândula pituitária a liberar a ocitocina – assim como a prolactina - em sua corrente sangüínea.
Quando alcança seu seio, a ocitocina faz com que os minúsculos músculos em torno dos alvéolos (cheios de leite) contraia-se. O leite é expelido para os ductos por onde é transportado para os seios lactíferos, que ficam logo abaixo do aréola. Enquanto suga, seu bebê pressiona o leite que está dentro desses seios lactíferos e faz com que jorrem direto em sua boca….
A criança não consegue quantidade suficiente de leite somente pela sucção, precisa do reflexo de “descida” para ajudar. Se o reflexo não funcionar a criança não conseguirá leite suficiente.
Ajudando ou Inibindo o Reflexo da Ocitocina
O reflexo da ocitocina é mais complicado do que o reflexo da prolactina. Os sentimentos, os pensamentos e as sensações da mãe podem afetar esse processo. Freqüentemente seus sentimentos ajudam, mas algumas vezes podem inibir o reflexo.
A glândula de uma nutriz pode produzir ocitocina se pensar no filho com carinho, ao trocar olhares com ele ou se escutar seu choro. A seguir, ela sente a contração na mama e o leite pode “descer”. Suas mamas estão prontas para amamentar…
Por outro lado, esses sentimentos podem inibir o reflexo da “descida” do leite:
se a mãe está preocupada ou com medo por alguma razão;
se ela tem dor – especialmente se a amamentação for dolorosa;
se ela estiver envergonhada.
Portanto, se a nutriz tem sentimentos positivos e confiança em sua capacidade de amamentar, o leite “desce” tranquilamente. Mas, se tem dúvidas, suas preocupações podem inibir a “descida” do leite.

Nos primeiros dias de amamentação, você pode sentir algumas contrações em seu abdômen enquanto o bebê suga. Esse pequeno desconforto sinaliza a liberação do ocitocina, que ajuda a contrair o útero, fazendo com que ele retorne ao tamanho normal mais rapidamente (e a diminuindo o risco de hemorragia no pós-parto, uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil). Este mesmo hormônio foi responsável pelas contrações do seu útero no parto e faz parte das relações sexuais. Você vai sentir-se mais calma, satisfeita, e alegre enquanto nutre seu bebê. Por isso a ocitocina é, também, conhecida como o hormônio do amor!
À medida que o seu fluxo de leite aumenta, você pode sentir também algum formigamento, ardência ou comichão em seus seios. Seu leite pode gotejar ou mesmo espirrar quando estiver “descendo”. Será bom se você puder criar um ambiente calmo para amamentar - se você estiver relaxada durante a amamentação, seu leite fluirá mais livre e facilmente. De fato, muitas mulheres comparam a amamentação a aprender a andar de bicicleta: pode ser complicado no início, mas uma vez que você - e seu bebê - aprendem, transforma-se em um ato natural.
Fontes: “Making Breastmilk: How your body produces nature’s perfect baby food” de Willow Older e “Como Ajudar as Mães a Amamentar” de Felicity Savage King.
Publicado originalmente no site: Amamentação Online, que está temporariamente, fora do ar.
Republicado no Sindrome de Estocomo
segunda-feira, 29 de dezembro de 2008
Modelos culturais na amamentação
A amamentação nos primatas superiores não é puramente instintiva. É preciso uma aprendizagem por observação, aprendizagem que na natureza se dá de forma espontânea. Mas muitas mães dão à luz sem nunca haver visto outra mulher dar de mamar. Algumas nem sequer tiveram outro bebê nos braços. Muitas adolescentes não passaram pela experiência de ver uma mãe cuidando do seu filho apesar de terem feito um bico de babysitter, cuidando o bebê (e dando mamadeira) quando a mãe está ausente.
Por outro lado, é relativamente fácil ver bebês tomando mamadeira. Nos parques, nos filmes, nas fotos de revista. Isso contribue para que, em muitos países europeus, as imigrantes dêem menos peito que as autóctonas. As turcas que moram na Suécia, por exemplo, não só dão menos peito que as que ficaram na Turquia, também dão menos peito que as suecas. A Suécia é um dos países da Europa onde mais se dá o peito, mas as imigrantes não ficaram sabendo. Não entendem os livros, não têm amigas com quem falar, só podem ver as fotos das revistas e chegam à conclusão de que "a mamadeira deve ser melhor, porque aqui é o que tomam todos os bebês".
Como dar mamadeira sim, já viram muitas vezes, em fotos ou ao natural, muitas mães tentam dar o peito segurando o bebê como se fossem dar uma mamadeira, com a cabeça no cotovelo e olhando pra cima. Dessa maneira, o bebê tem que virar e dobrar o pescoço e quase não chega ao peito.
Também a arte pode oferecer modelos inadequados. Em muitos quadros o menino Jesus mama sentado e com o pescoço torcido. Mas, preste atenção ao menino, costuma ter vários meses e ás vezes um ou dois anos. Os recém nascidos, verdade seja dita, não são muito fotogênicos; o quadro fica melhor com um bebê maiorzinho. E em alguns quadros o menino nem sequer está mamando, está olhando o pintor (tão interessante, claro) enquanto dá uma bela puxada no peito da mãe.
Trecho do livro Un Regalo Para Toda La Vida do pediatra Carlos González.
Também é objetivo do nosso grupo divulgar e promover uma cultura de amamentação.
Mesmo que não existam dúvidas nem dificuldades, venha partcipar das nossas reuniões! Sua participação é importante para juntas tentarmos recriar uma cultura mais amiga da mãe que amamenta...
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
SAIBA COMO USAR O COPINHO NO ALEITAMENTO
O leite materno é o melhor alimento para o bebê, é completo, contém tudo que ele precisa para crescer com saúde e se defender de várias doenças como as diarréias, as infecções respiratórias como gripes e pneumonias, diminui o custo da família, já que é de graça e não requer material para ser preparado, sendo também muito prático para ser utilizado.O aleitamento ao seio é importante para fortalecer o vínculo entre a mãe e o seu filho, despertando o sentimento de amor entre os dois. Com a amamentação o bebê se desenvolve intelectualmente e emocionalmente através do prazer e da convivência com a mãe. Algumas situações podem aparecer dificultando este contato, a mãe que precisa se ausentar e não pode levar seu filho junto, por exemplo, quando tem que ser internada por problema de saúde, quando vai trabalhar fora ou estudar, enfim, situações que provocam um afastamento do bebê.
O uso de mamadeiras e chucas confundem o bebê porque a forma de sugar ao seio é completamente diferente da forma como se suga os bicos artificiais correndo-se grande risco de desmame, ou seja, do bebê recusar o seio, porém, muitas vezes podemos oferecer este alimento precioso através de utensílios que manterão o aleitamento materno.
Para situações em que a mãe vai se afastar podemos utilizar copinhos, tais como xícara de cafezinho, os de aguardente, enfim, qualquer copinho ou xícara que não tenham nenhuma saliência em seu rebordo e que possam ser lavados e fervidos.
* Para realizar tal tarefa recomendamos os seguintes passos:
1- Despertar o bebê, massagear os pés e a face. Não deixar que o bebê esteja agitado de fome ou outro desconforto, pois dificulta a manobra;
2- Acomodar o bebê na posição sentada ou semi-sentada em seu colo, sendo que a cabeça forme um ângulo de 90º com o pescoço;
3- Encostar a borda do copo no lábio inferior do bebê e deixar o leite materno tocar o lábio;
4- O bebê fará movimentos de lambida do leite seguidos de deglutição;
5- Não despejar o leite na boca do bebê. O uso do copinho é um excelente método de alimentar o bebê com o leite materno, quando a mãe não pode oferecer o seu leite no próprio seio. Favorece o contato do bebê com o seu cuidador.
Quando mãe e filho estiverem novamente juntos ele manterá o aleitamento ao seio.
O recomendado pela OMS/UNICEF, Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Pediatria é que o aleitamento seja exclusivo até o sexto mês e complementado até dois anos ou mais. Portanto o ideal é que seu bebê receba seu leite (leite materno) ordenhado e oferecido no copinho. Apesar da técnica estar descrita acima, sugiro que procure por um profissional do aleitamento materno (AM) para treinamento. Geralmente estes profissionais treinados em AM (pediatra, enfermeira, psicóloga, etc) são encontrados em bancos de leite humano.
Dr Luciano B. Santiago - presidente do comitê de AM da SMP.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Quando a mãe trabalha fora

Quando você sai para o trabalho (ou quando sai com o cachorro), o seu bebê não sabe onde você está e quanto tempo você vai demorar. Ele ficará muito assustado e chorará como se você fosse deixá-lo para sempre. Vai levar alguns anos até que seu bebê seja capaz de ficar longe de você sem chorar e antes que ele entenda que a “mamãe vai voltar logo”. Toda vez que você voltar, vai abraçá-lo, amamentá-lo e o bebê pensará: “outro alarme falso!”. Mas se você retornar ao trabalho e tentar desmamá-lo abruptamente e ao mesmo tempo, quando você volta do trabalho, o bebê pede para mamar e você recusa, o que o bebê irá pensar? “Ela me abandonou porque não gosta mais de mim.” Esse é o pior momento para o desmame.
E a razão é que os bebês não são bobos. Se a mãe não está em casa e a avó vem com uma mamadeira (ou melhor ainda, com um copinho para evitar confusão de bicos), duas coisas podem acontecer. Primeiro, se o bebê não estiver com fome, ele provavelmente não aceitará nada. Ele vai compensar isso quando a mãe retornar. Muitos bebês dormem a maior parte do tempo quando estão distantes das mães, e então vão mamar à noite. A outra possibilidade é, se o bebê estiver com fome (e especialmente se tiver leite materno na mamadeira), ele poderá tomá-la e pronto. E ele deve estar pensando: “Bem, ela não está aqui, então é isso que eu tenho que fazer.”
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Porque não dar agua
Dar água para um bebê que tem menos de seis meses é desnecessário e pode até mesmo ser perigoso!
Crianças que são amamentadas, freqüentemente, recebem grande quantidade de água através do leite materno. Aproximadamente 90% do leite materno é formado por água!O risco de infecções nos bebês é muito aumentado se ele recebe água.
O risco de introduzir bactérias e outros patógenos é tremendamente aumantado com o uso da água (ou qualquer outra coisa além do leite materno) nesse período. A contaminação pode vir pela própria água ou dos utensílios usados para dar água ao bebê (chuquinhas, mamadeiras, copos etc.). Crianças que não são exclusivamente amamentadas tem maiores taxas de diarréia e outras doenças que crianças exclusivamente amamentadas. Apenas a água encontrada no leite materno é pura o suficiente para os bebês pequenos.
Se tomar água, o bebê será menos nutrido do que deveria. Leite materno contém agentes anti-bactérianos e anti-virais, que agem como uma primeira imunização do bebê. Se a água substitui o leite materno em alguns momentos, a criança não vai receber o máximo de proteção que iria se fosse apenas amamentado.
A produção do leite materno pode diminuir. O suprimento do leite materno depende principalmente da demanda do bebê. Se o bebê está recebendo água e sugando menos, a mãe vai produzir menos leite.
Dar água ameaça a proteção contraceptiva da amamentação. A criança que bebe água sente-se mais "cheia" e conseqüentemente vai sugar menos. A mamada freqüente é necessária para uma efetiva proteção contraceptiva, portanto a mãe não estará protegida de uma outra gravidez pelo mesmo tempo que estaria se ela não desse a água ao bebê.
Se uma criança tem diarréia leve, amamente mais frequentemente. Se tem uma diarréia moderada ou severa, amamente mais frequentemente, mas também dê reidratação oral.
Lembre-se: à criança normal não deve ser oferecido nada além do leite materno nos seis primeiros meses. Se a mãe pensa que seu bebê tem sede, ela deveria beber mais água e amamentar mais freqüentemente!
esse texto foi retirado do site www.aleitamento.org.com.br atualmente fora do ar
fonte: Wellstart International - USA (Expanded Promotion of Breastfeeding Program)
domingo, 28 de setembro de 2008
Desmame total – quando?
Dr. Marcus Renato, 28/3/2003
Esta é uma questão polêmica no mundo ocidental na atualidade. As mulheres têm recebido conselhos contraditórios, porque nós profissionais de saúde não chegamos à um consenso. A Academia Americana de Pediatria recomenda que os lactentes devem ser desmamados já aos 12 meses, enquanto a OMS e o UNICEF afirmam que os bebês devem ser amamentados até os 2 anos ou mais . Algumas mulheres ocultam que ainda amamentam seus filhos maiores de 1 ano para evitar a desaprovação dos pediatras e dos membros da família.
Estudos antropológicos revelam que em muitas culturas não ocidentais as mulheres amamentam comumente seus filhos até os 3-4 anos. Serão elas ou nós os excêntricos ? Não seria interessante nos compararmos a outros mamíferos para determinar qual a idade do desmame “ideal” se não tivéssemos sido influenciados por questões comerciais ou culturais?
Desmame ao alcançar o triplo do peso do nascimento - Esta idéia de que os mamíferos desmamam quando suas crias triplicam ou quadruplicam seu peso de nascimento aparece extensamente na bibliográfica sobre Amamentação (Lawrence, 1989). As pesquisas indicam que o desmame nos grandes mamíferos (incluídos os primatas – macacos, chipanzés, gorilas e o homem) ocorre alguns meses depois que o peso do nascimento de nossos filhos quadruplicam (Lee, Majluf & Gordon, 1991). Nosso lactente quadruplica seu peso ao nascer em torno dos 27 meses (os meninos) e aos 30 meses (as meninas).
Desmame ao alcançar 1/3 do peso do adulto - Estudos sugerem que os primatas se comportam como outros mamíferos desmamando a cada um dos seus descendentes quando eles alcançam um terço do peso de adulto (Charnov & Berrigan, 1993). Os humanos: alcançamos tamanhos bastante variáveis, porém com este critério o desmame teria lugar entre os 4 – 7 anos de vida.
Desmame de acordo com o tamanho corporal feminino - Harvey & Clutton-Brock (1985) publicaram um estudo que incluía uma equação para calcular a idade do desmame em função do peso do corpo da mulher adulta. Esta fórmula prediz que o desmame para os humanos seria entre os 2,8 e 3,7 anos.
Desmame em função da duração da gestação - Entre as espécies de primatas de grande tamanho, a duração do período de aleitamento materno excede amplamente a duração média do período de gravidez. Para os primatas mais próximos da espécie humana, o Chipanzé e o Gorila, a duração da amamentação é superior em mais de 6 vezes a duração do período gestacional. Os humanos: nos encontramos entre os primatas maiores e compartimos mais de 98 % do material genético com os Chipanzés e Gorilas. Utilizando-se deste critério, a idade natural do nosso desmame seria 4,5 anos – 6 vezes a duração da gravidez.
Desmame em função das erupções dentárias - De acordo com as investigações de Smith (1991), muitos primatas desmamam sua prole quando rompem os seus primeiros molares permanentes. Nossos molares emergem entre os 5,5 ou 6 anos. É interessante salientar que nossos filhos alcançam autonomia imunológica em torno dos 6 anos de vida, o que nos permite inferir que, ao longo de nosso recente passado evolutivo, nossas crianças dispunham de uma imunidade ativa até esta idade aproximadamente.
Os dados disponíveis sugerem que as crias humanas estão desenhadas para receber todos os benefícios do Aleitamento ao Seio durante um período mínimo de 2,5 anos e um aparente limite máximo de 7 anos. Hoje em dia muitas sociedades podem satisfazer as necessidades nutritivas das crianças a partir do 3º/4º ano de idade com alimentos de adultos modificados. As sociedades industrializadas podem compensar alguns (e não todos) os benefícios imunológicos da amamentação por meio de vacinas, antibióticos e melhorias sanitárias e higiênicas. Porém, as necessidades físicas, cognitivas e emocionais das crianças persistem.
Os profissionais de saúde, principalmente os pediatras, nutricionistas, psicólogos, os pais e o público em geral deveriam tomar consciência de que para alguns autores, entre os 3 e os 5 anos é uma idade razoável e apropriada para o desmame dos humanos, ainda que seja pouco habitual, e não cultural em nossas sociedades amamentar uma criança quando ela não é mais um bebê.
Referência
Dra. Katherine A, Dettwyler – Departamento de Antropologia – Texas A & M University College Station Texas. “Breastfeeding Abstracts” Ag. 1994, Vol . 14, no. 1
Leitura recomendada
“Tabus e Temores acerca del Destete Tardio” por Justin P. Call, MD (”Nuevo Comienzo” Nov.- Dec. 1990)
Agradecimento
Profa. Dra. Alejandra Marina Mercado – Universidad Nacional Del Camahue – Escuela de Medicina - Argentina
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Banco de Leite Humano
As doadoras de leite são captadas no município de Piracicaba e região. Elas devem ser mulheres sadias que apresentam produção de leite superior às necessidades de seu filho e que se disponham a doar o excedente por livre e espontânea vontade com o objetivo de ajudar o próximo sem fins lucrativos.
Há na região uma carência de um serviço específico para referência em apoio ao aleitamento materno. O BLH do HFCP atende as gestantes e nutrizes do município já que sabemos que o leite materno é o alimento mais completo que existe para o bebê, sendo essencial incentivar o aleitamento exclusivo, que protege os bebês da maioria das doenças e proporciona um desenvolvimento e crescimento saudável ao lactente, além de fortalecer os laços afetivos entre mãe e bebê. O aleitamento traz também vantagens para a mãe, como a prevenção da hemorragia pós-parto e diminuição do risco de câncer de mama e ovário.
O BLH fornece leite humano pasteurizado a bebês prematuros, recém-nascidos de baixo peso que não sugam, com enteroinfecções e casos excepcionais com indicação médica ou nutricional.
Atendemos de segunda à sexta-feira das 08h às 17h e aos sábados das 07h às 13h. Para ser doadora basta agendar um atendimento para realizar o cadastro e receber as orientações sobre a ordenha, armazenamento e transporte do leite. Ressaltamos que o leite pode ser trazido diretamente ao BLH ou retirado no domicílio da doadora com horário agendado.
Enfª Dayse Ruiz de Araujo Banco de Leite Humano
Gestão Materno Infantil
Hospital dos Fornecedores de Cana de Piracicaba
Fone: 19-3403.2820 bancodeleite@hfcp.com.br
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Amamentação a La Carte
Amamentação em intervalos pré-determinados é um mito. Houve um tempo em que se pensava que bebês deveriam mamar a cada 3 horas, ou a cada 4 horas e por exatamente 10 minutos de cada lado! Você já se perguntou o porquê de 10 minutos e não 9 ou 11?
Claro, adultos nunca comem por “10 minutos em cada prato a cada 4 horas”. Quanto tempo a gente leva para terminar o prato? Isso depende do quão rápido a gente come. É o mesmo com bebês. Se eles mamam rápido, podem gastar menos que 10 minutos, mas se mamam devargar, podem gastar bem mais.
O adultos comem em horários pré-determinados somente porque as obrigações de trabalho forçam-nos a organizar suas refeições desta forma. Normalmente, nos dias de folga, a rotina usual é mudada sem qualquer dano à saúde. Contudo, ainda existem pessoas que acreditam que os bebês precisam ser acostumados a mamadas de horário e fazem referências vagas à disciplina ou boa digestão.
Para um adulto, a comida pode esperar. Nosso metabolismo permite que esperemos por uma refeição e a comida é exatamente a mesma agora ou daqui a uma hora. Mas seu bebê não pode esperar. Sua fome é urgente e a comida dele muda se a refeição se atrasa. O leite humano não é um alimento morto, mas uma matéria viva em constante processo de mudança. A quantidade de gordura no leite aumenta à medida em que a amamentação progride. O leite do início da mamada tem baixo conteúdo gorduroso e o leite do final é altamente rico em gordura; chegando a ser 5 vezes mais gordo.
média de gordura em qualquer mamada depende de quatro fatores:
1. Intervalo da mamada anterior (quanto maior o intervalo, menor a quantidade de gordura);
2. Concentração de gordura no final da mamada anterior;
3. Quantidade de leite ingerido na última mamada;
4. Quantidade de leite ingerido nesta mamada.
Quando a criança mama os dois seios, ela raramente esvazia o segundo seio. Para simplificar, basta dizer que ela toma 2/3 de leite desnatado e 1/3 de creme de leite. Contudo, a criança que mama somente um seio por mamada toma ½ leite desnatado e ½ creme de leite. Se ela toma um leite menos gordo (menos calórico), ela pode aceitar grandes volumes e consumir mais proteínas. Então o bebê que mama 50 ml de cada seio não mama o mesmo que um que toma 100 ml de um seio só; e a dieta do bebê que toma 80 ml a cada 2 horas é totalmente diferente da dieta do bebê que toma 160 ml a cada 4 horas.
Os fatores que controlam a composição do leite ainda estão sendo estudados e ainda não se sabe muita coisa. Por exemplo, sabe-se que um dos seios geralmente produz mais leite, com maior concentração de proteínas que o outro. Talvez seja só coincidência ou talvez seu filho decida isso, dando preferência a um seio em relação ao outro, escolhendo uma refeição com mais ou com menos calorias.
E você pensou que seu bebê mamasse sempre o mesmo leite? Você pensava que era entediante passar meses e meses tomando somente leite? Isso não é verdade com o leite materno. Seu bebê tem à disposição dele um grande cardápio para escolher, desde sopa leve a uma sobremesa bem cremosa. Uma vez que o seio não fala (nem pode entender o bebê), o bebê faz seu pedido de 3 formas:
1. Pelo tanto de leite que ele toma a cada mamada (mamando por um longo ou curto tempo e com mais ou menos intensidade);
2. Pelo intervalo entre uma mamada e outra;
3. Mamando um ou os dois seios.
O que seu bebê faz quando mama para obter exatamente o que ele precisa de um dia para o outro é uma obra de engenharia. O bebê tem total e perfeito controle da sua dieta, desde que ele possa mudar as variáveis de acordo com seu desejo. É isso que a livre demanda significa: deixar o bebê decidir quando ele quer mamar, por quanto tempo ele vai ficar no seio e se ele quer mamar um ou os dois seios.
Quando o bebê não tem o direito de controlar um dos mecanismos, na maioria das vezes ele tenta mudar uma ou outra variável. Num experimento, alguns bebês foram colocados para mamar somente em um seio por mamada, durante uma semana e nos dois seios na semana seguinte (a ordem foi variável). Em teoria, os bebês teriam ingerido muito mais gordura nos dias em que mamaram somente de um lado do que quando mamaram nos dois seios. Contudo, os bebês espontaneamente modificaram a freqüência e a duração das mamadas e foram capazes de ingerir quantidades similares de gordura (mas volumes diferentes de leite).
Se o bebê não tem a chance de modificar a freqüência ou duração das mamadas e ele não tem a oportunidade de decidir se quer mamar de um lado ou dos dois, ele fica perdido. Ele não consegue tomar a quantidade de leite de que precisa, mas acaba tomando o que lhe é oferecido. Se a sua dieta está muito longe das necessidades reais do bebê, ele terá problemas em ganhar apropriadamente ou passará o dia faminto e irritado. É por isso que amamentação em horários pré-estabelecidos raramente funciona e quanto mais rígido for o esquema, mais catastrófico é o resultado. Os bebês precisam mamar irregularmente, somente assim eles têm uma dieta balanceada.
Desde o primeiro dia, embora pareça que ela está tomando somente leite, a criança está escolhendo sua dieta a partir de uma gama de opções e ela sempre escolhe sabiamente, tanto na qualidade, quanto na quantidade.
Do livro My Child Won’t Eat, do pediatra Carlos González.
A tradução é de Flavia Oliveira Mandic.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
O que é o leite materno?
O que sabemos do Leite Materno vem daquilo que observamos do leite de vaca, um líquido branco e brilhante.O leite de canguru é rosado. Mas o que interessa é que o leite é espécie–específico, porque sua composição é feita para determinadas necessidades de crescimento e maturação do bebê de cada espécie. Por exemplo, o leite de vaca contém mais ácidos graxos voláteis que o leite humano, e bebês humanos não digerem esses ácidos muito bem; eles produzem muitos gases nos bebês. O leite de vaca também contém mais ferro mas este não é aproveitável pelo sistema digestivo humano. O bebê absorve melhor o ferro do leite materno, que também é digerido em cerca de vinte minutos, enquanto o leite de vaca pode levar cerca de duas horas para ser totalmente digerido (a fórmula). O leite materno também contém cerca de uma centena de aminoácidos, vitaminas, sais minerais, e açúcares, compondo uma receita especialmente feita para as necessidades do bebê humano.
A composição do leite também oferece a chave para o estilo e intensidade do comportamento materno espécie-específico. Em espécies cujas mães só amamentam ocasionalmente e deixam seus bebês sozinhos por longos períodos, o leite é rico em gordura e proteínas, de modo que o bebê possa ser compensado (pela proteína) e satisfeito (pela gordura) por longos períodos, sozinho. Quando o leite é pobre em gordura e proteína, como o leite humano, isso indica que a amamentação é destinada ou tende a ser mais constante. O leite humano contém cerca de 88% de água e 4,5% de gordura em média, dependendo do estilo de aleitamento; intervalos longos produzem leite com baixa concentração de gordura, enquanto a amamentação contínua produz alta concentração de gordura. Ao contrário, o leite da foca é constituído de 54% de gordura, o que é bastante. Ou seja, o bebê foca é aleitado a longos intervalos, e também precisa de altas concentrações de gordura para adquirir as grossas camadas de gordura corporal para viver em ambiente aquático.
Fluido protetor natural
Os bebês nascem com certa quantidade de anticorpos circulantes, que adquirem de suas mães através da placenta. Mas essa imunidade é frágil e eles precisam ser expostos ao mundo externo e experimentar reações imunitárias para construir seu alicerce imunitário para combater os germes. O colostro e depois o leite materno são verdadeiras usinas de protetores contra os vírus e bactérias e são uma forma transicional espetacular entre a ? pré-natal e a infância tardia, quando o sistema imunológico já se desenvolveu totalmente (pela idade de cinco anos). Essas descobertas são relativamente recentes, o que explica, em parte, a idéia de que a fórmula se compara ao leite materno.
O fator mais importante nessa barreira imunológica transferida é a lactoferrina, uma proteína que protege contra a escherichia coli e o estafilococo, as causas mais incapacitantes da diarréia e da mortalidade infantil. O leite materno também oferece propriedades antivirais que se incorporam fisicamente aos germes da cólera e a giárdia, o que explica porque os bebês amamentados, vivendo em ambientes sem higiene, são capazes de sobreviver. São importantes também no colostro e no leite materno as cinco categorias de anticorpos chamados imunoglobulinas, que protegem contra infecções e são a principal barreira imunitária dos bebês. Esse sistema é especialmente importante porque atua dentro das mucosas que revestem o nariz, os pulmões e brônquios, os intestinos – as áreas mais vulneráveis dos bebês aos agentes patógenos. IgA é uma delas.
A IgA secretora (S-IgA) é encontrada no sistema respiratório e trato intestinal de adultos. Quando a mãe ingere ou inala agentes que causam doenças (patógenos) as moléculas de S-IgA se ligam a esses agentes ou antígenos, e se tornam específicas para esses agentes. A S-IgA da mãe é transferida do sangue para o leite.Pelo 4º mês de vida, os bebês amamentados recebem cerca de 0,5 g de anticorpos diariamente, que se alojam nos pulmões e intestinos. Como as maiores causas de morte em bebês são a diarréia e a pneumonia, a imunidade conferida pelo LM reduz incrivelmente a mortalidade infantil. Há evidências de que o sistema imunológico dos bebês amamentados amadurece e se fortalece mais rápida e mais intensamente, já que não sofrem os efeitos devastadores sobre a resistência, causados pelos agentes patógenos do meio.
Referência: Our babies, Ourselves / by Meredith Small, Anchor Books, NY, 1999.
Outras observações sobre leite materno do livro "Besame Mucho", de Carlos Gonzalez.
Outra diferença fundamental estabelece-se entre os mamíferos que escondem as suas crias em tocas ou luras, como os coelhos, e aqueles que levam as crias para toda a parte ao colo, como os prima tas, ou a andar, como as ovelhas.A mãe coelho passa a maior parte do tempo possível a uns metros de distância da sua lura para não atrair os lobos com o seu odor (o odor das crias é muito mais fraco do que o da mãe). Vê o que lhe dizia? Voltei novamente a utilizar a linguagem poética, como se a coelha fizesse as coisas de propósito. Ela não sabe nadasobre o odor nem sobre os lobos. Fá-Io porque os seus genes a obrigam a fazê-Io e, ao longo de milhões de anos, as coelhas que possuem o gene «manter-se afastada da lura» conseguiram ter mais filhos vivos do que as que possuem o gene «ficar dentro da lura». O triunfo desse gene é a prova de que era útil no ambienteevolutivo da espécie, isto é, quando havia lobos. Agora que em muitos países não existem lobos nem mesmo outros predadores, esse comportamento da coelha pode ser inútil, contudo, a coelha não o sabe e continua a agir do mesmo modo.
A mãe coelha deixa as suas crias escondidas na lura e amamenta-as apenas uma ou duas vezes por dias.
Para passar tantas horas sem comer, os coelhos bebés necessitam de um leite muito concentrado: 13 por cento de proteínas e 9 por cento de gordura. A cria da cabra acompanha a mãe para toda a parte e mama de forma quase contínua, pelo que o seu leite contém apenas 2,9 por cento de proteínas e cerca de 4,5 por cento de gordura.
O leite materno contém cerca de 0,9 por cento de proteínas e 4,2 por cento de gordura. Quanto tempo pensa que um bebé consegue aguentar sem mamar?
Como numa coreografia delicada, as crias vão evoluindo em consonância com as mães e com a composição do leite: os coelhos que tentarem sair da lura para seguir a mãe morrem jovens, da mesma maneira que os cordeiros que esperam pela mãe em vez de a seguirem. Quando estão sozinhos na lura, os coelhos ficam absolutamente imóveis e calados, pois, se chorassem e chamassem amãe, poderiam atrair os lobos. Pelo contrário, as pequenas cabras que perdem de vista a mãe durante um momento começam a chamá-Ia desesperadas.
De maneira que o comportamento da mãe e das crias é diferente e característico de cada espécie, estando adaptado à sua forma de vida e às suas necessidades.
Seria ridículo tentar explicar a uma coelha que deve ser «uma boa mãe» e passar mais tempo com os filhos, do mesmo modo que seria absurdo dizer a uma cabra que não deveria andar sempre com a sua cria «agarrada às suas saias», porque a cria necessita de «tornar-se independente » e a mãe «também necessita de momentos de intimidade para viver em casal».
Os primatas em geral necessitam de um contacto contínuo com a mãe.
John Bowlby, um pedopsiquiatra inglês, descreve pormenorizadamente em Attachments o comportamento de apego em diferentes primatas apartir da observação de numerosos cientistas. Explica, por exemplo, as aventuras de outro investigador, Bolwig, que decidiu criar em sua casa uma cria de macaco órfã, tomando o papel de mãe substituta para estudar as suas reacções. Curiosamente, recebia, como as mães humanas, conselhos de toda a gente sobre a melhor maneira de criar o pequeno macaco.
Bolwig descreve a intensidade do apego manifestado pela cria cada vez que convenciam o seu tratador (a despeito da maneira como pensava) da necessidade de a castigar, fechando as portas da casa, por exemplo, ou encerrando-a numa jaula. «Sempre que tentei fazê-10..., produzia-se um atraso no desenvolvimento do macaco. Aumentava o apego que sentia em relação a mim e ficava mais travesso e mais difícil de levar.»
O castigo e a separação dão tão mau resultado num macaco como numa criança. Vejamos o que aconteceu um dia em que Bolwig fechou o macaco numa jaula:Agarrou-se a mim e não permitiu que me afastasse do seu campo de visão durante o resto do dia. Durante a noite, enquanto dormia, de tempos a tempos acordava, emitia breves lamentos e agarrava-se a mim, e, quando me tentava soltar, experimentava um profundo terror (Bolwig, citado por Bowlby).Se os cientistas encontrassem um animal novo, até agora desconhecido, e quisessem observar rapidamente (sem necessidade de o estar a observar durante semanas) qual é a sua maneira habitual de cuidar das crias, poderiam levar a cabo uma experiência muito simples: levar a mãe e deixar as crias sozinhas. Se ficaremquietas e caladas, é porque é normal nessa espécie que as crias fiquem sozinhas. Se começarem a gritar como se as estivéssemos a matar, é porque o normal nessa espécie é que as crias não se separem da mãe nem sequer por um momento.
E o seu filho? Como reage ele quando a leitora se ausenta? O que lhe parece ser o normal na nossa espécie?
Através do comportamento dos comportamento dos nossos filhos, da observação dos nossos parentes (animais) mais próximos, da composição do nosso leite, podemos concluir que o ser humano pertence plenamente ao grupo de animais que mamam de forma contínua.

